
Toda viagem de estrada é feita de trechos. Há os esburacados, que exigem paciência. Os congestionados, que parecem não terminar nunca. E há aqueles raros momentos em que o asfalto vira um tapete liso e contínuo, quando tudo flui e o tempo perdido finalmente parece recuperável.
Como uma rodovia, Passageiro do Mal oscila entre esses diferentes terrenos. Nem sempre encontra o melhor caminho, acumulando desvios narrativos e algumas irregularidades pelo percurso. Mas quando engrena, entrega sequências que transformam o espaço vazio da estrada em puro terror, provando como o sugestivo ainda pode ser mais inquietante do que qualquer revelação explícita.

Dirigido pelo norueguês André Øvredal, o filme acompanha Maddie e Tyler, um casal que parte em uma road trip sem destino definido. Durante a viagem, eles testemunham um acidente fatal numa estrada deserta. O que parecia apenas um desvio inesperado logo se transforma em pesadelo, quando pa ssam a ser perseguidos por uma presença misteriosa que parece nunca ficar para trás.
Quem nunca ouviu histórias sobre assombrações na estrada? Repetidas entre gerações de viajantes, elas falam de passageiros fantasmas, vultos na escuridão e aparições que surgem no meio do caminho. Embora Passageiro do Mal vá além desses causos populares, é interessante perceber que o filme nasce justamente de um medo ancestral e universal: o de nunca estar realmente sozinho na estrada.
Ao ambientar 90% da duração em estradas, a direção consegue criar sequências genuinamente assustadoras. É uma dicotomia curiosa: em tese, as rodovias deveriam facilitar as tentativas de fuga do casal; mas, se o perigo vem justamente delas… não há caminho a percorrer.
Øvredal explora essa lógica de confinamento a céu aberto em favor do terror. Há espaço por todos os lados, mas nenhuma rota de fuga parece possível. Com muito espaço para transitar, a câmera se movimenta de maneira inteligente, quase como se fosse um personagem autoconsciente do próprio filme. Quando aliada à fotografia, que varia, de maneira criativa, entre a sugestão e a intensidade, e os sustos pontualmente atrasados, a direção se torna o grande atrativo do filme.
Há pelo menos três sequências (ou trechos, para manter a referência às estradas) que colocam Passageiro do Mal em uma prateleira acima de boa parte dos títulos recentes do gênero: a cena inicial, que atrasa o jumpscare por quase dez minutos; o estacionamento da academia, uma aula de movimentação de câmera sugestiva; e, minha favorita, aquela em que o casal assiste A Princesa e o Plebeu em um projetor no meio da floresta.

É uma pena, portanto, que o texto do filme não consiga acompanhar o esmero da parte técnica. Logo após um trecho que pode ser considerado um “tapete”, sempre vem um problema. Se nas estradas, esses obstáculos tratam de buracos, curvas sinuosas e acidentes, no filme, são os diálogos, tomadas de decisão dos personagens e buracos narrativos.
Por exemplo: a mitologia retrata o tal “passageiro” como uma figura que só aparece nas estradas. Alivio um pouco pela qualidade da cena, mas então porque, oras, a criatura surge no meio do estacionamento de uma academia? E se os ataques acontecem sempre durante a noite, não seria melhor já estar fora das estradas, em alguma cidade ou vilarejo, próximo ao final da tarde?
E isto é apenas um recorte, pois durante todo o percurso (ou duração), Passageiro do Mal conta com esses problemas. O maior buraco na estrada, porém, vem lá de cima: São Cristóvão, o padroeiro oficial dos motoristas, caminhoneiros e viajantes.
O trecho a seguir contém spoilers.
O filme abre com um lettering da oração de São Cristóvão. Ou seja, logo no início, já sabemos que o santo será parte da resolução do conflito. Até aí tudo bem. O que não dá para entender é porque em alguns momentos o tal demônio é sensível à força da fé, e em outros nem tanto. Acho, porém, que sei a resposta: porque o filme precisa que seja assim.
Logo no início, Tyler mostra à Maddie a Medalha de São Cristóvão, que deve protegê-los durante a viagem. E já no primeiro ataque, é justamente a medalha que salva o casal, queimando a pele da criatura ao simples contato com a pele.
Momentos depois, um novo ataque. Dessa vez, Maddie, que estava com a medalha no pescoço, é arrastada pela estrada. Mas, como? Como o demônio conseguiu segurá-la enquanto ela usava um artefato sagrado? O mesmo artefato que, minutos atrás, os salvou.
Como esperado, no fim, a relação com São Cristóvão é elevada à macro escala, e a criatura é derrotada em solo sagrado: no terreno onde a antiga Igreja do santo era localizada. No meio de quilômetros e mais quilômetros de mato, onde o casal só não se perde pois, de uma hora para a outra, Maddie aprendeu a ler símbolos.
Fim dos spoilers.
Passageiro do Mal é uma viagem irregular: cheia de desvios, inconsistências e buracos difíceis de ignorar. Ainda assim, quando encontra seu melhor trecho, entrega um terror atmosférico tão preciso que torna difícil desviar o olhar. Nem todo o percurso compensa, mas há curvas suficientes para fazer a viagem valer a pena.

